A prisão do negro e a do branco

Ao longo da minha adolescência e início da minha fase adulta eu fui assaltado 15 vezes quando morava na cidade do Rio de Janeiro.

Perdi pelo menos uns 6 relógios, dinheiro e algumas vezes a chance de decidir se eu ia ficar vivo ou não.

Eu já tive uma arma apontada para a minha cabeça 4 vezes.

Em uma dessas vezes um rapaz entrou no ônibus, apoiou-se de costas no encosto do banco onde eu estava sentado, colocou a arma na minha cabeça e avisou:

“Se alguém reagir eu mato o garoto.”

Eu fiquei imóvel, tentando continuar a ler o livro que segurava nas mãos enquanto sentia o cano da arma junto da minha cabeça.

O outro rapaz que acompanhava este que segurava a arma, recolheu os pertences e o dinheiro das demais pessoas do ônibus e foi embora sem sequer olhar para trás.

Eu só me dei conta do que havia acontecido alguns minutos depois.

Este e outros eventos violentos de maior ou menor proporção construíram um mecanismo de defesa dentro de mim.

Como na maioria das vezes, havia sido assaltado por jovens negros, sempre que eu via um jovem negro andando do mesmo lado que eu na rua, eu sempre preferia atravessá-la para não ser assaltado.

Era o meu jeito de me defender de um provável assalto.

Porém, quando eu cruzava com bandidos (sendo negros ou não) e eles percebiam essa minha reação, eu era atacado.

Porque sempre que eles viam um jovem branco e franzino de óculos atravessando para o outro lado da rua para não cruzar com eles, eles sabiam estar diante da vítima perfeita.

Entretanto, quando eu cruzava com jovens negros que não eram bandidos, apenas jovens e negros, e eles viam que eu atravessava a rua para não cruzar com eles, se sentiam excluídos.

E assim eu levei a vida durante um bom tempo, me excluindo de andar no mesmo lado da calçada com outros jovens negros porque simplesmente eles eram negros.

Não me importava se o jovem negro que vinha na minha frente era mocinho.

Eu construí uma jaula para mim durante um tempo enquanto tentava aprisionar outros jovens negros dentro do meu preconceito.

Pois é assim que vivemos hoje.

Todos enjaulados.

Com a diferença que o negro já nasceu preso, enquanto o branco, se aprisionou.

De quem é o azar ou a sorte? Bem…

Recomendo o filme Sonhos Imperias no Netflix que mostra a dificuldade de um negro nascido no gueto se manter mocinho.

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