Assustado (parte 1)

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Eu me lembro de estar realmente nervoso.

Estávamos no ponto.

Eu, Wenderson e Livinho, quando o ônibus chegou.

Nós três entramos.

Ficamos na porta.

Ali, conversando…

Todo mundo nervoso.

Minhas mãos suavam.

Nas costas, o ferro frio me congelava por inteiro.

Não tinha mais jeito.

Eu já estava ali.

Wenderson mandou:

“Tá contigo João.”

Pulei a roleta.

Livinho mandou o cobrador calar a boca.

Wenderson foi pra trás do busão.

Olhei toda aquela gente de costas.

Era cedo e todo mundo estava meio quieto naquele ônibus meio vazio.

Tive que agir.

Afinal, eu estava com o cano.

Fui direto na cabeça de um garoto mais ou menos da minha idade que lia de cabeça abaixada.

Botei o cano na cabeça dele e sem pensar gritei:

“Se não derem tudo o que tem eu dou um tiro na cabeça do moleque.”

Meus amigos começaram a limpa.

Eu estava nervoso.

Olhava pra um lado e olhava pro outro com medo.

O moleque continuava lendo.

Retardado! Branquelo quatro olho filha da puta!

O ônibus ameaçou parar pra alguém que fazia sinal quando Livinho gritou:

“Não pára essa porra não!”

Eu tremia. Suava. Mas mantinha a pressão na testa do garoto pensando:

“Que porra de livro é esse que ele não pára de ler?”

Terminou.

Puta que pariu. Graças a Deus!

Meus amigos corriam felizes pra porta da frente do ônibus.

Guardei o cano nas costas o mais depressa que pude e nem olhei pra trás.

“Caralhooo!” – gritamos os três na rua enquanto tomávamos à primeira a direita e sumíamos na Avenida Brasil.

Que alívio. Acabou.

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