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Photo by nikko macaspac on Unsplash

Eu tinha seis anos quando meu avô morreu. Lembro de ter ido para o quintal da vila onde a minha família morava no Engenho de Dentro quando percebi o zum zum zum dentro de casa. Passei pelo sofá da sala, onde sempre deixava a minha bola de futebol e fui brincar com ela no quintal, em frente a um pequeno muro que dividia a casa da minha avó com o restante da vila.

Não passou muito tempo até minha mãe vir me dar a notícia: meu avô tinha morrido.

Continuei batendo a bola no muro lembrando dos álbuns de figurinha que eu colecionava com ele, dos jogos de botão que passávamos a tarde jogando e da maneira como ele me ensinou a fazer contas usando moedas.

Aos 36 anos, vi falir o meu quarto negócio próprio.

Depois de ter fechado as portas de uma empresa de desenvolvimento de software que abri aos 20 anos, um site para compra e venda de carros que comecei aos 24 e uma agência de desenvolvimento web que fundei aos 29, minha pequena fábrica de portas sanfonadas de madeira encerrou suas atividades por falta de capital quando eu tinha 36.

Com a crise financeira que atingiu o mercado da construção civil no Brasil em 2015, eu e meu sócio fechamos a empresa após amargar calotes de alguns clientes importantes.

Alguns dias antes de encerrarmos o negócio definitivamente, enquanto embalávamos as últimas portas do estoque para vendê-las no Mercado Livre pela metade do preço que valiam só para cobrir os custos, lembrávamos do trabalho que tivemos no início da empresa pesquisando fornecedores, contratando empregados e indo atrás de clientes.

No mês passado, deixei cair um vidro de azeite no chão da cozinha logo depois de termos feito faxina em toda a casa.

Eu havia acabado de cozinhar e já estava preparando os pratos de comida. Servi primeiro o arroz, depois o feijão, coloquei um pedaço de carne no prato e ao estender o meu braço sobre a pia da cozinha para pegar o vidro de azeite, ele escorregou da minha mão espatifando-se com a queda.

O chão da cozinha ficou completamente sujo de azeite.

O almoço foi adiado por pelo menos 30 minutos, enquanto tentávamos remover aquela gordura do chão com papel toalha, pano, muita água e detergente. Os cacos de vidro maiores foram os mais fáceis de remover; já a maioria dos cacos menores foi sendo encontrada muitos dias depois desse evento.

A cada pequeno pedaço de vidro verde que eu achava na cozinha, me lembrava daquele acidente ocorrido dias atrás.

Todos os dias sofremos derrotas pequenas e grandes e todos os dias temos a chance de escolher quais delas irão nos vencer.

Muitas pessoas se sentem derrotadas quando alguém morre ou um relacionamento termina. Algumas, quando um negócio acaba ou são demitidas. Outras, quando um vidro de azeite cai no chão ou a tela do celular quebra.

“Nunca confunda uma derrota pontual com uma derrota definitiva”. – F. Scott Fitzgerald

Sempre que estou treinando jiu-jitsu, sofro pequenas derrotas que, dependendo da maneira como eu lido com elas, determinam o meu sucesso ou o meu fracasso naquele treino.

Quando empurro meu companheiro de treino para trás com o meu pé no seu bíceps, enquanto puxo as mangas e a lapela do seu kimono e ele estoura uma das minhas pegadas, avançando sobre a minha guarda, sofro uma pequena derrota.

Se eu não lidar bem com essa pequena derrota e continuar resistindo à passagem do meu companheiro, usando somente força sem qualquer inteligência para reposicionar o meu corpo no treino, acabarei perdendo mais outra pegada. Consequentemente, me colocarei em uma posição de muita desvantagem. Meu companheiro de treino facilmente chegará na minha lateral ou montará sobre o meu tórax, tornando mínimas as minhas chances de reverter o jogo.

Existe muita coisa fora do nosso controle na vida

Independentemente da nossa vontade, as pessoas continuarão morrendo, os relacionamentos terminando, os negócios acabando, os empresários demitindo, os vidros de azeite quebrando e as telas de celulares se partindo.

Eu aprendi que para lidar melhor com as derrotas diárias, dentro do tatame ou fora dele, são necessárias três atitudes:

  1. Aceitar
  2. Entender
  3. Aprender

A maioria das pessoas ficam paralisadas, reclamando das coisas que aconteceram ao invés de aceitá-las para seguir adiante. Ficam se relacionando eternamente com aqueles seres do passado que morreram, traíram, roubaram, prejudicaram…

Como se não tivessem nenhuma responsabilidade sobre as coisas que acontecem nas suas vidas, elas se colocam como reféns do mundo. Perdem-se em um lamaçal de vitimização e não enxergam que continuam repetindo as mesmas atitudes que as levaram até esse lamaçal porque não aprenderam nada com os acontecimentos do passado.

Elas simplesmente não aceitam a vida e, com isso, não conseguem dar o próximo passo: entender.

Somente quando você aceita, você consegue entender. É como aceitar que ao arremessar um objeto para o alto, ele irrevogavelmente cairá. Um cientista precisa aceitar a lei da gravidade para entendê-la, assim como nós precisamos aceitar que a maioria dos acontecimentos da vida não saem do jeito como a gente gostaria que saísse.

Quando aceito que a vida é assim mesmo, eu posso olhar mais profundamente para aquilo que aconteceu. Entender, por exemplo, que sempre é bom limpar a boca da garrafa do azeite com papel toalha depois de utilizá-la para evitar que ela escorregue da próxima vez que eu pegá-la.

É aceitando que as coisas caem e entendendo por que elas caem que eu consigo aprender a lidar melhor com as quedas.

Quando meu companheiro de treino estoura as minhas pegadas no seu kimono, eu aceito. Aceito rapidamente para entender que preciso de outra estratégia para sair daquela situação de desconforto e bloquear o seu progresso sobre o meu corpo.

Quando meus clientes deixam de pagar no dia combinado, eu aceito. Aceito rapidamente para entender que preciso redigir contratos com os próximos clientes e assim diminuir a inadimplência do meu negócio.

Quando perco dinheiro em um investimento, eu aceito. Aceito rapidamente para entender que preciso estudar mais sobre o assunto e evitar novas perdas financeiras no futuro.

Somos nós, não a vida, quem decide se a derrota é pontual ou definitiva.

Aceite o passado. Entenda-o. Aprenda com ele.

Este post foi um oferecimento de:
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Marcos Rezende

Redator freelancer, orientador de produção textual na Mentoria da Palavra, criador de sites em WordPress na DoutorWP, graduando em Filosofia na UFPR e faixa roxa de jiu-jitsu brasileiro pela equipe Atos Loyalty Curitiba.

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