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Às vezes, caio na tentação de compartilhar conteúdos sobre política nas minhas redes sociais. E, como o leitor já deve saber, compartilhar conteúdos relacionados à política, principalmente às vésperas de uma eleição presidencial, não é a melhor atitude para quem deseja viver em paz.

Eu tive que excluir as duas últimas publicações que compartilhei nas minhas redes sociais por terem gerado discussão com muitas opiniões divergentes que resultaram em algumas ofensas e brigas. Não importava o quanto eu tentasse embasar a minha atitude de compartilhar o conteúdo: sempre vinha alguém rebater meus argumentos com a força digna dos governantes mais tiranos.

Eu fico imaginando como seriam as redes sociais da atualidade em uma época de ditadura como a que vivemos aqui no Brasil entre os anos de 1964 e 1985. Quem faria a censura dos conteúdos compartilhados na rede? Seriam meus próprios amigos e familiares? Quais conteúdos passariam no filtro da censura? Memes engraçados, opiniões sobre reality shows e vídeos de gatos certamente, mas o que mais?

Para mim, três acontecimentos recentes que descrevo a seguir, são um bom exemplo do que estamos vivendo.

Em outubro de 2017, o líder do governo Michel Temer no Congresso Nacional, deputado André Moura (PSC-SE), defendeu em um palanque em Sergipe que “bandido bom é bandido morto”. Um mês depois, a socialite Day McCarthy publicou um vídeo na internet  em que chamou a filha do ator Bruno Gagliasso de “macaca horrível” em referência à cor de pele da criança. E mais recentemente, o dono do Bahamas, uma famosa casa de exploração sexual feminina em São Paulo, disse na ocasião da possível prisão de Lula que “se matarem ele na prisão, a cerveja vai ser de graça durante o mês inteiro”.

Além de não querer mais dar a minha opinião sobre assuntos polêmicos, recentemente tomei a atitude de não seguir mais os meus amigos nas redes sociais, bloquear a exibição do feed de notícias do meu Facebook e não acompanhar mais nenhum perfil no Twitter para não tomar conhecimento da opinião deles.

Confesso que estou em uma bolha digital. Só vejo o que quero e só falo sobre o que não gera discussão. Preferi a ditadura dos bloqueadores de feed de notícias e dos botões de ‘não seguir’ nas redes sociais à liberdade de expressão. Preferi me relacionar com pessoas de carne e osso, tête-à-tête, do que viver soterrado de opiniões não solicitadas no meio digital.

No mundo real, eu posso escolher a dedo quem faz parte do meu círculo de amizade. Posso ter conversas sempre agradáveis com quem tem as mesmas opiniões que eu. Restringindo-me a poucos amigos, consigo estabelecer maiores laços de amizade com eles e me ver reconhecido por um grupo: um grupo que pensa igual a mim!

Entretanto, a situação não está boa. Ainda tenho que “engolir sapos” nas conversas de sábado à tarde para manter a animação da mesa e me vejo o tempo todo escolhendo o lado da opinião da maioria do grupo em que estou. Seja na faculdade, no bar ou nas redes sociais, se eu quiser viver em paz, precisarei calar a minha voz e a voz daqueles à minha volta.

Estamos vivendo uma ditadura. Uma ditadura da opinião.

Ouço que protetor solar é o que causa homossexualidade nos homens e me calo. Ouço que todo petista merece morrer e me calo. Ouço que todo latifundiário merece um tiro no meio da cara e me calo.

Vivemos calados para manter as aparências da boa convivência em meio àqueles que não sabem argumentar e só querem emitir a sua opinião. Nossa sociedade tira os livros das escolas e dá uma rede social para todos falarem o que quiserem sem embasamento, pois é mais importante estar certo do que tentar chegar à verdade através do equilíbrio entre vários olhares.

Construímos cada vez mais e mais bolhas de opiniões que não se tocam ou, quando o fazem, se repelem de tal maneira que derramam sangue.

Com esse cenário, não se pode esperar nada além de um afastamento ainda maior dos divergentes, até o ponto em que um não exista mais na presença do outro.

Bolhas completamente diferentes e incomunicáveis preencherão o mundo até que não sejam capaz de coexistirem umas com as outras.

Eu aqui. Você aí. Pra sempre.


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Marcos Rezende

Redator freelancer, orientador de produção textual na Mentoria da Palavra, criador de sites em WordPress na DoutorWP, graduando em Filosofia na UFPR e faixa roxa de jiu-jitsu brasileiro pela equipe Atos Loyalty Curitiba.

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