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Photo by Jessica Knowlden on Unsplash

“Bom dia”, diz o porteiro do prédio onde trabalho.

Caminho até o elevador, encontro com alguns colegas do escritório e subimos juntos para o décimo primeiro andar. Ao chegar no escritório, vou direto para a cafeteira e depois para a minha mesa. Checo e-mails, faço brincadeiras com quem trabalha ao lado e começo o meu dia de trabalho.

Entre uma tarefa e outra, uma piada e uma distração. Um e-mail divertido ou uma mensagem no celular torna-se mais interessante que o meu trabalho.

Na hora do almoço, me junto a meus colegas para irmos a um restaurante próximo ao prédio onde trabalhamos. Depois de uma hora mais ou menos, voltamos para as nossas mesas seguindo o mesmo roteiro da manhã: café, e-mails, brincadeiras e tarefas.

Se de manhã é difícil manter a concentração, à tarde é ainda pior. Entre as tentativas de concluir minhas tarefas, confiro no relógio quanto tempo falta para eu escapar daquele lugar. O tédio faz arder o meu estômago. Levanto, pego mais um café, converso sobre um assunto qualquer com um colega qualquer e volto para minha mesa.

Tento focar novamente nos meus afazeres. Me esforço. Cumpro algumas tarefas que reservei para fazer naquele dia e deixo outras para concluir no dia seguinte. Minha caixa de e-mails está lotada com mensagens de pessoas cobrando aquilo que ainda não consegui terminar ou o que terminei, mas que precisa ser refeito.

Dá a minha hora.

Levanto, recolho minhas coisas, me despeço daqueles que ficam e vou em direção à porta. Dou boa noite para a secretária que está ali organizando alguns papéis e abro a porta de vidro do escritório. Ao fechá-la, percebo como a minha mão toca tensa a maçaneta e como a mochila pesa nas minhas costas, como que predizendo o que estava por vir.

Volto meu olhar para a sala com alguns dos meus colegas trabalhando e lá no fundo avisto a minha mesa já sonolenta. A cadeira levemente empurrada para trás, o computador desligado e a caneca de café ao lado do mouse.

Termino de fechar a porta e sigo pelo corredor. Um dos elevadores parece aguardar para me levar de volta ao primeiro piso onde encontrarei todas as outras pessoas que estão deixando suas mesas nesse mesmo horário.

Meus pés tocam o térreo e eu recebo uma mensagem da minha esposa no celular:

“Vamos ser pais”.

Congelo.

Meu coração é assaltado por inúmeras emoções e minha mente é sequestrada por pensamentos sobre o futuro do meu filho. Continuo caminhando a passos lentos e entorpecidos. Reaprendendo a colocar os pés no chão, relembro as coisas que meus pais me disseram na infância para eu me tornar quem sou. Coisas como “se esforce”, “estude”, “seja alguém na vida”, ecoam no meu vazio.

“Espera!”, uma voz grita na minha consciência.

Quase atravessei um cruzamento de carros sem olhar para os lados. Uma chuva fina cai do céu enquanto anoitece. As luzes dos postes da rua estão acesas e os carros engrenam a primeira marcha para andar mais um pouco no engarrafamento à minha frente.

Pessoas disputam lugar embaixo das marquises e o cheiro de pipoca doce envolve o ar que entra frio pelas minhas narinas. Uma buzina dispara e um ambulante anuncia uma promoção. Vejo meu reflexo no vidro espelhado do prédio do outro lado da rua e, entorpecido, encaro quem sou.

Concluí a faculdade e cumpri todas as etapas que imaginava serem necessárias para conquistar uma vida tranquila e prazerosa. Estudei noites a fio, deixei de ir a festas, de tocar com minha banda e de viajar com meus amigos porque acreditava que o meu esforço seria recompensado.

Neguei seguir meus sonhos e assumir grandes riscos para percorrer o caminho que já havia sido determinado para mim pelos meus pais. Assim eu imaginava que poderia controlar as situações da minha vida e ter pleno poder sobre o meu futuro.

Meu reflexo no vidro revelava o que eu havia me tornado: um figurante mal pago da minha própria vida.

  • Queria correr, mas não podia.
  • Queria gritar, mas não podia.
  • Queria ser eu mesmo, mas não podia.

Eu era uma vítima dos meus medos e estava prestes a ensinar o mesmo para o meu filho.

“Quais eram, agora, as chances de eu escapar dessa rotina que me leva da cama para a porta, da porta para a mesa, da mesa para o café e do café para a mesa de volta?”

“Então isso é ser adulto?”, me perguntava.

Acho que vou comprar uma pipoca doce.

Este post foi um oferecimento de:
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Marcos Rezende

Redator freelancer, orientador de produção textual na Mentoria da Palavra, criador de sites em WordPress na DoutorWP, graduando em Filosofia na UFPR e faixa roxa de jiu-jitsu brasileiro pela equipe Atos Loyalty Curitiba.

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