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Alguma coisa trágica pode ter ocorrido na sua vida que não o deixará ser quem você era nunca mais, mas isso não pode nos impedir de continuar vivendo e lutando por quem nós somos. Este foi o aprendizado desta última semana. Mais um aprendizado daqueles em que aprendemos da pior forma: errando, ou melhor, tomando uma cacetada da vida para enxergar aquilo que não víamos.

NUNCA MAIS SEREMOS OS MESMOS
Quem tem me acompanhado nas redes sociais ou por aqui mesmo no blog, sabe que há cerca de dois meses adquiri uma égua para criar aqui no sítio onde moro e que desde então, recuperei minha paixão de infância por cavalos e comecei a estudar doma e tudo o mais sobre o mundo equino. Construí cerca, passei a entender mais da psicologia desta minha égua, a compreender seus quereres chegando até a passar remédio nas partes mais delicadas de seu corpo além de dar banho até que o pior acontecesse.

No último sábado, devido a uma comemoração da igreja perto de onde moro, soltaram fogos de artifícios no estilo reveillon que surpreenderam minha égua e a fizeram quebrar seu cotovelo enquanto se debatia de susto pelo quintal. Quando a vi com a pata quebrada, logo pensei que teria de sacrificá-la, pois todos sabem que um cavalo com a pata quebrada praticamente não consegue fazer mais nada. Parece ser algo como se a paixão dele fosse arrancada e seu único talento jogado fora. Foi bem triste. Muito triste ter visto o animal que cuidava com tanto carinho neste estado.

Na mesma hora, liguei para o veterinário que uma hora depois estava a examinando para comprovar o fato de que realmente sua pata estava quebrada, mas que felizmente haveria uma forma de mantê-la viva. Como o que quebrou foi uma junção do seu braço e antebraço em uma de suas patas dianteiras, ela poderia ser mantida viva que em cerca de 60 dias essa junção seria calcificada e a deixaria livre pastando e sem problemas maiores, além de uma leve mancada que a acompanharia para sempre. Ela não poderia mais servir de montaria, mas iria continuar pastando e até poderia dar cria se nós quiséssemos.

Apesar da pena em ver um animal de 250 quilos apoiado em três patas com enormes dificuldades para andar e principalmente se abaixar para comer, compreendi que precisava salvá-la deixando-a tendo em nosso pasto seu descanso merecido. A tristeza vem à minha mente pelas coisas que ela já fez no passado. Pelas suas fugas correndo colônia a fora ou pelos seus trotes quando eu corria com ela. Nunca mais ela será a mesma. Não cavalgará mais ou trotará.

ESTAMOS MANCOS DA NOSSA PAIXÃO
Da mesma forma que um cavalo manca por ter sido arrancada sua paixão por correr e voar pelo mundo, nós fomos abatidos pela domesticação humana para abandonarmos a nossa paixão. Andamos todos mancos por aí com dificuldades para fazer aquilo que seria da nossa natureza fazer. Não tomamos mais decisões por nós mesmos e não decidimos para onde e quando vamos correr. Simplesmente nos colocamos em um ambiente escuro e levamos a vida sentindo pena de nós mesmos sem lutar.

Sinceramente, olhando a dor da égua que até hoje (três dias depois) ainda não tem sua respiração normalizada por causa da dor que ainda sente, prefiro egoisticamente que ela tivesse morrido no seu acidente. No entanto, esse bicho, esse animal, está demonstrando um incrível poder de lutar pela sua própria vida e me dando grandes lições. O acidente foi sábado, mas já hoje, segunda de manhã, ela está andando para lá e para cá, indo até o seu trato e até a sua água, posicionados estrategicamente longe do lugar onde ela estava se escondendo desde sábado à noite. Ela preferiu não sentir pena de si mesma e continuar vivendo pelo prazer de simplesmente viver sua vida de cavalo. Não será mais a mesma égua que era. Não poderá correr e nem fugir na velocidade que fugia, mas poderá viver a sua vida da forma como a vida escolheu para ela.

Quantas e quantas vezes não passei por crises na minha vida onde preferi morrer do que aprender a conviver com as novas situações. Assim como a égua que continuará pastando e que poderá dar cria no futuro, nós também servimos para algo neste mundo, mas que abandonamos por adorarmos sentir pena de nós mesmos. Deixamos o mundo cortar as nossas paixões, nos dizer que somos ruins e que não prestamos e quebrar as nossas pernas somente para continuarmos vivendo uma vida de pena.

LIÇÃO
Aprendi com esta situação que não temos problemas, por pior que eles nos pareçam. Aprendi que sempre estamos em transformação e que nunca somos isso que parecemos ser hoje. Hoje é uma transformação do que seremos amanhã e assim será sempre. Também compreendi que nossos problemas não podem nos impedir de crescer e de viver. Eles existem apenas para que aprendamos a lidar com eles.

E por último, aprendi que a vida nos ensina a todo o momento e que determinadas vezes é preciso que fiquemos de castigo ou tomemos uma bordoada maior para enxergarmos aquilo que ela precisa nos mostrar. Não somos donos da nossa vida, apenas decidimos o que fazer com os nossos cavalos nas situações que a vida nos impõe.

Eu decido não abandonar a minha vida, as minhas paixões e o meu talento, por causa de uma perna quebrada ou um olho machucado. Eu decido me manter de pé e viver, aprendendo a lidar com meus problemas da melhor maneira, mas nunca abandonando a minha razão de viver. Não se abandone. Não mesmo. Não deixe que as babaquices do mundo coloquem em dúvida a sua natureza. Foque na sua paixão, no seu prazer, na sua felicidade e lute por ela.

Por mais que te amarrem. Por mais que te surrem. Por mais que te façam sofrer. Lute. Não pelos outros, mas pela sua própria alegria de viver.

Marcos Rezende

Orientador de produção textual na Mentoria da Palavra, graduando em Filosofia na UFPR com concentração em Lógica e Filosofia da Linguagem, desenvolvedor de sites em WordPress na Agência G13 e faixa roxa de jiu-jitsu brasileiro pela equipe Atos Loyalty Curitiba.

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