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Uma cadelinha foi sequestrada e abusada sexualmente por um idoso de 68 anos, que se justificou à polícia dizendo que ela o estava “provocando”.

A sonegação de impostos no Brasil é sete vezes maior que a corrupção, mas esse estupro é justificado como legítima defesa por aqueles que fazem de tudo para sonegar alguns tributos.

Diversos casos de violência sexual contra a mulher são justificados pelos criminosos como inevitáveis já que as vítimas estavam “pedindo para serem estupradas” por usarem roupas curtas.

Você já deve ter percebido que sempre que alguém violenta, invade ou prejudica outra pessoa; justifica seus atos através do merecimento do estupro, demonstrando uma clara incompreensão entre a ideia de ações necessárias e ações livres.

  • Se o homem acha que a cadela o provoca, é necessário estuprá-la.
  • Se o empresário acredita que os impostos são mal gerenciados pelo governo, é necessário sonegá-los.
  • Se o criminoso concebe que uma mulher está “pedindo para ser violentada”, é necessário estuprá-la.

Ela não merece [ser estuprada] porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia, não faz meu gênero, jamais a estupraria. Eu não sou estuprador, mas, se fosse, não iria estuprar, porque não merece” – Jair Bolsonaro

Se fosse bonita, ela mereceria ser estuprada?

David Hume, filósofo escocês do século 18, definiu como ideia de necessidade a conexão de causa e efeito que existe entre dois objetos (sendo objetos qualquer coisa material ou imaterial).

Por exemplo, uma ação necessária seria ir ao banheiro quando nosso corpo sinaliza que a bexiga está cheia de urina. Existe uma conexão entre ter ingerido líquidos e ir ao banheiro, assim como entre ingerir líquidos e a bexiga ter ficado cheia.

Ir ao banheiro foi uma necessidade, pois a decisão de procurar um banheiro derivou de ter ficado com a bexiga cheia, que derivou de ter tomado muito líquidos, que derivou de ter ido a uma festa, que derivou de ter feito amizade com a dona da festa…

Nesse sentido, existe uma eterna correlação dos fatos que embasam a relação de causa e efeito, fundamental para entendermos a ideia de necessidade. Entretanto, nem todas as ações são necessárias, pois algumas podem ou não ser tomadas. Ingerir muito líquido, ir à festa ou ter feito amizade – por exemplo, são ações que poderiam ou não ter sido realizadas.

Em casos assim, em que há possibilidade racional para atuarmos, agimos por liberdade.

“Liberdade é um poder de agir ou não agir de acordo com as determinações da vontade”. – David Hume

Estupradores são vítimas da sociedade?

Toda vez que nos colocamos na posição de estupradores (agressores, sonegadores, violentadores), adotamos a posição de vítimas justificando nossos delitos como se eles necessariamente tivessem que ser cometidos, classificando as verdadeiras vítimas como causas das ações que cometemos de forma livre e voluntária.

Se olharmos a sociedade como um grande indivíduo formado por diversos outros pequeninos indivíduos, tal como um corpo humano formado por milhões de células, perceberemos que determinadas atitudes desse corpo provocam ações voluntárias de algumas células que nem sempre vão ao encontro do benefício do corpo.

Sabe-se que as células que constituem o nosso corpo são formadas por três partes:

  • a membrana celular, que é a parte mais externa da célula;
  • o citoplasma, que constitui o corpo da célula;
  • e o núcleo, que contém os cromossomos que por sua vez são compostos de genes.

Os genes são arquivos que guardam e fornecem instruções para a organização das estruturas, formas e atividades das células no organismo.

Toda a informação genética encontra-se inscrita nos genes, numa “memória química” – o ácido desoxirribonucleico (DNA) através do qual os cromossomos passam as informações para o funcionamento das células.

Quando ocorre uma alteração genética no DNA, as células passam a receber instruções erradas para as suas atividades. Desse modo, diferenciando-se das demais, tais células passam a serem denominadas como cancerosas.

Logo, se:

  • o DNA é o verdadeiro responsável pelo funcionamento das células do nosso corpo,
  • a cultura é a verdadeira responsável pelo funcionamento da sociedade.

A Cultura é o DNA da sociedade

Quando o DNA sofre alterações que vão contra o bom funcionamento do corpo e passam a transmitir instruções erradas para as células, temos o câncer.

Para quem tem câncer, não importa muito se é apenas um pequeno pedaço do seu corpo que possui a doença, porque a pessoa sabe que aquele pequeno pedaço do seu corpo está colocando em risco o funcionamento de todo o resto.

Quando um idoso estupra uma cadela, um empresário sonega impostos, uma mulher é estuprada, alguém assalta um banco, mata alguém, fura um sinal, joga papel pela janela do carro ou mija no chão, estamos diante de reflexos de um problema de cultura, do DNA da sociedade.

Instruções erradas presentes no DNA das células da sociedade passam a justificar atos voluntários que vão contra o benefício do corpo como se fossem atos necessários, com origem e causa na própria sociedade.

Podemos chamar a polícia (nossos anticorpos) e dar-lhe autorização para matar bandidos; também podemos dar uma arma para cada célula do nosso corpo defender a si própria. Porém, enquanto o DNA não parar de enviar instruções erradas para as células, viveremos em uma eterna quimioterapia de estupradores – ou seja, usando um procedimento de cura que não é adequado para tratar aquela doença.

Como aquela pessoa que adquire uma dor de cabeça por causa de estresse, mas ao invés de mudar o seu estilo de vida, aumenta progressivamente a dose de Neosaldina.

Diferentemente de apenas definir com mais clareza quais são os crimes da sociedade e criar novas medidas coercitivas que punam com maior efetividade quem comete crimes, precisamos pensar nas instruções que o nosso DNA está enviando para as nossas células. Porque fatos como o estupro de animais, sonegação de impostos e violência contra a mulher, podem ter a mesma origem.

São só alguns sintomas.


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Marcos Rezende

Redator freelancer, orientador de produção textual na Mentoria da Palavra, criador de sites em WordPress na DoutorWP, graduando em Filosofia na UFPR e faixa roxa de jiu-jitsu brasileiro pela equipe Atos Loyalty Curitiba.

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