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Photo by Ye Jinghan on Unsplash

Outro dia ouvi: “Se você não viver com a esperança de que as coisas vão melhorar, é melhor não viver então…”

A pior forma de alienação é a auto-alienação e a pior forma de auto-alienação é a esperança.

Em um sentido geral, a esperança é a crença emocional na possibilidade de que resultados positivos estejam relacionados com eventos e circunstâncias da vida pessoal, requerendo uma certa perseverança em acreditar, por exemplo, que algo é possível mesmo quando há indicações do contrário.

João é brasileiro, casado, 35 anos, está no auge da sua vida produtiva, ganha R$ 6.000 de salário CLT por mês, mora em um bairro a 15 minutos de distância a pé do lugar onde trabalha e tem um filho de 8 anos.

Do salário de João, são descontados automaticamente R$ 570 de INSS e R$ 576 de IRRF, entre outros descontos.

Do valor que sobra do salário de João, ele paga R$ 1.200 de aluguel, R$ 750,00 para a escola do seu filho, R$ 500,00 de plano de saúde para a família, além de outros R$ 1.200 de gastos com supermercado e R$ 600,00 de despesas com a casa (luz, água, gás, telefone, internet, condomínio, etc.).

Efetuados todos os pagamentos de impostos e despesas familiares, do salário de João, sobram R$ 604 para ele colocar gasolina no carro, passear no final de semana com a família, fazer investimentos, etc.

Com esse salário bruto de R$ 6.000, João está entre os 4% brasileiros mais ricos do Brasil e, para chegar onde está, ganhando mais do que 96% dos outros 207 milhões de brasileiros, João cursou todo o ensino fundamental, tem diploma de ensino médio como técnico de informática e concluiu, ainda aos 24 anos, o curso superior de matemática em uma renomada universidade pública do país.

Para chegar até esse ponto da vida, os pais de João investiram na sua educação, proporcionando-lhe acesso a escolas particulares assim como João faz com o seu filho. Além disso, deram-lhe oportunidade de fazer um curso de inglês para se qualificar melhor para o mercado de trabalho. Estratégia que deu “certo”.

Hoje João vive bem, mas anda preocupado com o futuro.

Como todo brasileiro, João não desiste nunca e cultiva a esperança de que as coisas irão melhorar por causa da biografia que construiu. Homem íntegro, de nome limpo e com curso superior, hoje tem medo de, por não desistir nunca, perder a vida antes de conseguir o futuro feliz que tanto espera. E como João não segue nenhuma religião, tampouco acredita que depois da morte alcançará uma vida melhor.

Alguns dizem para João que ele deveria buscar uma religião, algo que confortasse essa angústia que ele sente ao perceber que estudou 18 anos para ter que decidir no mercado entre comprar um pão saudável de R$ 7,98 ou um pacote de bolacha de marca duvidosa de R$ 1,99.

Não faz muito tempo, João se propôs o desafio de encontrar algo no mercado que custasse menos que R$ 1,00 e ficou espantado ao não encontrar um só produto por esse preço.

Esse texto não é uma crítica ao Brasil ou ao seu povo, mas uma constatação de como as coisas são. Pior: uma constatação de como as coisas são e continuarão sendo. Enquanto o brasileiro estiver sob o cabresto da esperança e iludido por salvadores da pátria, não há como ele enxergar a realidade em que vive:

A realidade de que o Brasil inteiro é uma imensa senzala onde cada escravo luta para ser dono de outros escravos em sua própria senzala de três quartos, piscina privativa e uma caminhonete de tração quatro rodas na garagem.

Não é porque a algema de um escravo é melhor que a de outro que ele deixou de ser escravo. Estando na senzala, somos todos escravos.

A esperança é o ópio do povo.

Este post foi um oferecimento de:
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Marcos

Um escritor dentro do corpo de um programador, apaixonado pelas letras e praticante de jiu-jitsu.

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