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Na última quarta-feira, voltando para casa depois do treino de jiu-jitsu, passei no posto de combustível para abastecer o carro. Estacionei próximo a bomba, pedi para o frentista colocar 50 reais de gasolina comum, respondi que a água e o óleo estavam “certos” e pedi a “comanda” para poder pagar o abastecimento lá dentro, na loja de conveniência.

Geralmente, neste horário próximo ao meio dia, a loja não tem filas para pagamento, mas neste dia, duas pessoas à minha frente, estavam um senhor e uma senhora de cerca de uns sessenta e poucos anos fazendo o pagamento de uma compra grande no posto. Pelo valor que eles estavam pagando, cerca de 260 reais, imaginei que eles haviam feito algum serviço, como troca de óleo, no posto ou então haviam enchido o tanque do seu automóvel, uma SUV da Jeep.

Bem, não importa muito o motivo daquele pagamento, pois não foi isso que me chamou a atenção. Tampouco o tipo de carro que aquele casal dirigia. O que chamou mesmo a minha atenção é que eles estavam parcelando aquela compra em 6 vezes no cartão de crédito!

No dia anterior ao narrado acima, tive mais uma aula de Filosofia Clássica Alemã sobre o livro Crítica da Razão Pura do filósofo Immanuel Kant. Após diversas aulas e explicações anteriores acerca do capítulo do livro intitulado Estética Transcendental, cheguei a conclusão de que na realidade só temos a dúvida como única certeza. Que, segundo Kant, é impossível conhecermos a realidade na sua totalidade, com R maiúsculo, porque sempre estamos tendo acesso aos fenômenos que nos atingem a partir da nossa exclusiva cognição.

Ou seja, é impossível para mim ter contato com os fenômenos que você tem acesso na sua vida assim como é impossível você ter contato com os fenômenos que eu tenho acesso na minha vida.

Aprendi também que uma coisa só existe quando temos como localizá-la no espaço e no tempo. As coisas que apenas se localizam no tempo, como a memória de algo que já passou ou a imaginação de algo que está por vir, não existem de fato porque não podem ser localizadas também no espaço. São apenas um acesso a uma representação de algo que um dia realmente existiu, mas que hoje só existe como representação.

Exemplificando: aquilo que determinada pessoa disse para você e que te ofendeu não existe de fato porque hoje não está mais presente no espaço. Para nutrir mágoas sobre a ofensa sofrida no passado, é preciso que você recorra a memória para trazer de volta uma representação do que aconteceu e não a realidade do que aconteceu. Essa representação carregada pela memória é fraca tal qual o retrato de alguém que não pode revelar quem a pessoa é de fato, mas o que ela foi no passado, a partir de um ângulo específico da câmera que a fotografou.

O mesmo acontece quando você nutre esperanças de que dias melhores virão. Você imagina que terá sucesso no futuro e, baseando-se nessa imaginação, nutri sentimentos positivos a respeito desse futuro bem sucedido que projetou. Tanto o que aquele pessoa fez para você não existe como o futuro que você projetou também não.

Quando aquele casal de idosos no posto de combustível parcela em seis vezes a sua compra, revela que de fato eles não tem condições de ter e usufruir aquilo que querem ter e usufruir hoje. Parcelando a compra no cartão de crédito, eles revelam que estão confiando na projeção de um futuro em que eles poderão pagar aquela compra.

Confiar em uma projeção é a mesma coisa que confiar que o lápis está quebrado dentro do copo de água quando o que de fato acontece é uma ilusão de ótica. O lápis continua inteiro. Nossa visão é que está distorcendo a realidade.

Não dê tanta importância a cena do posto de combustível que eu descrevi , mas sim ao fato de que no Brasil o povo só tem acesso a bens de consumo e serviço que precisam através de crédito.

  • O brasileiro não pode viajar para onde gostaria de viajar se fosse pagar à vista a sua viagem, mas confiando na projeção que faz do seu futuro bem sucedido 1 ano à frente, consegue viajar agora (e postar fotos bacanas no Instagram).
  • O brasileiro não pode ter a televisão que gostaria de ter se fosse pagá-la à vista, mas confiando na projeção que faz do seu futuro bem sucedido 2 anos à frente, consegue usufruir dela agora e ainda “tirar onda” com os amigos quando eles forem visitá-lo para jogar videogame (também parcelado).
  • O brasileiro não pode ter a casa que gostaria de ter se fosse pagá-la à vista, mas confiando na projeção que faz do seu futuro bem sucedido 35 anos à frente, consegue usufruir dela agora, mesmo sabendo que ela é, de fato, do banco.

Acho que você entendeu o ponto.

O crédito é a esperança do consumidor assim como a fé é a esperança de quem não tem crédito.

Ao invés do brasileiro olhar a realidade de como as coisas são em si mesmas no espaço e tempo (não ter condições de sustentar a vida que leva) vive atado a uma ilusão de consumo que um dia cobrará os devidos juros.

Basta notar que nas propagandas políticas o termo “acesso ao crédito” é sempre exposto pelos candidatos como uma das soluções para o país sair da crise, uma vez que, segundo eles, faria “girar” o mercado. Essa ilusão oferecida pelo mercado, faz o brasileiro desatento creditar, assumir como verdadeira, uma ilusão que a ele foi vendida como solução para os seus problemas.

Se o brasileiro passasse a enxergar a sua realidade com R maiúsculo, certamente estouraria uma revolução no país. Não seríamos um país de reforma atrás de reforma. Porém, como o brasileiro se satisfaz com o acesso precário a bens de consumo e serviços temporários, se realiza ao saber que o seu candidato a presidente ampliará o acesso ao microcrédito e ao crédito universitário e o ajudará a tirar o nome do Sistema de Proteção ao Crédito (SPC) para poder consumir mais.

Quando o termo economia se torna o tema principal de uma nação, ela deixa de ter seres humanos e passa a ter somente consumidores.

Ignorantes consumidores. É o que somos.

Este post foi um oferecimento de:
Como Investir do Zero, o novo eBook sobre investimentos do Guia Invest.

Marcos

Um escritor dentro do corpo de um programador, apaixonado pelas letras e praticante de jiu-jitsu.

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